MINHA JORNADA DE AUTOCOMPAIXÃO
Tenho uma amiga que diz que todos os cursos e vivências que ela promove são sempre, em primeiro lugar, para ela mesma. E ela começa todos seus cursos dizendo isso, o que faz muito sentido para mim porque demonstra humildade e o reconhecimento de que sempre estamos aprendendo, mesmo que tenhamos estudado ou praticado bastante algum tema.
De fato, não é por acaso que me envolvi com essa temática da autocompaixão e com suas práticas. Durante a maior parte da minha vida, fui uma crítica severa de mim mesma, perfeccionista, com elevados padrões a perseguir. Eu queria ser alguém especial, me destacar, estar acima da média, mas isto tudo tinha um preço muito alto. Por vezes, pensava que era essa pessoa, mas outras vezes, minha autoestima despencava e eu sofria muito com isso.
Kristin Neff, a autora do livro “Autocompaixão”, inicia o livro dizendo que nossa sociedade incita a competitividade e para nos sentirmos bem, merecedores, precisamos nos sentir “especiais e acima da média”, ou seja, nossa autoestima depende da comparação com os outros. O desejo de se sentir especial é compreensível, ela continua, mas o problema disso “é que, por definição, é impossível estarmos todos acima da média ao mesmo tempo.” (Autocompaixão, 2010, p. 12)
Refletindo muito sobre isso, vejo que minha jornada de autocompaixão se inicia quando consegui tomar consciência de que eu não era e nem queria ser essa pessoa especial e acima da média, mas era um ser humano comum, com vulnerabilidades, fraquezas, mas também com qualidades.
Foi no ano de 2019, ao terminar o grupo de estudos sobre felicidade, com um grupo de mulheres, que consegui expressar textualmente essa verdade tão dura e, ao mesmo tempo, libertadora. Eu li o texto para minhas companheiras do grupo e chorei enquanto lia:
Este projeto não foi em nada grandioso, como as coisas que sempre almejei, mas é assim que a maior parte da minha vida é, e sempre foi. Eu sempre fui uma pessoa comum, mediana, mas nunca aceitei isso. Minha mãe um dia sonhou que eu seria uma grande palestrante, uma grande ‘alguma coisa’ e eu acreditei nisso, eu busquei isso. Eu queria ser alguém especial.
Mas não sou e não quero ser. Eu abro mão dessa profecia, deste mandamento dado a mim. Eu me libero disso. (Texto escrito em 15/10/19)
Foi nesse momento que pude olhar para meu sofrimento de um modo diferente, com aceitação. E desde esse momento, tenho tentado lembrar a mim mesma: “Está tudo bem sofrer; faz parte da humanidade comum. Está tudo bem falhar, errar, não ser perfeito.”
A jornada continuou durante a pandemia. No primeiro semestre de 2021, cursando a pós-graduação em Psicologia Positiva, participei de uma disciplina em especial - Liderança para mudança - em que tínhamos que construir nosso “mapa imunológico” e investigar as suposições implícitas a nossa subjetividade que nos levavam a agir de determinada maneira. Esse processo me ajudou a acessar uma experiência da infância que me permitiu entender muito do sofrimento que sentia e da necessidade de querer ser especial. Eu havia ficado trancada num quarto durante quase um dia inteiro, por ter brigado com minha irmã dois anos mais nova que eu. Essa experiência punitiva, de desamparo e solidão, que não pôde ser expressa, nem compreendida nesta fase, me traumatizou.
Eu consegui acessar esse sofrimento, por meio de sonhos e da terapia, já aos 53 anos de idade e, finalmente, pude acolher a menina que havia ficado encerrada no quarto escuro durante todos esses anos. Esta experiência também foi registrada em um texto, cujo título é “Inferno”, que compartilhei com algumas amigas e que compartilho um trecho aqui:
Ficar trancada durante tanto tempo gerou em mim algumas crenças que hoje eu consigo enxergar:
Eu sou uma pessoa muito ruim e, para ser aceita, ser amada, eu tenho que mostrar que sou uma pessoa muito boa.
Eu não posso errar mais, eu tenho que fazer de tudo, o possível e o impossível para não errar. Só assim não serei mais punida.
Eu sou uma pessoa sozinha e não posso contar com ninguém e nem confiar nas pessoas.
Para não ser uma pessoa ruim, para não ser punida e para ser amada e nunca mais ser abandonada, eu criei uma super-personagem, com uma super-armadura.
Me ver como uma pessoa especial, superior, inteligente, querida por todos, amável, que gosta de ajudar os outros e muito generosa me ajudou a andar pela vida e ser aceita. Mas no fundo, na verdade, eu não me aceitava como era, não aceitava minha dor e, mais ainda, não aceitava a maldade da qual pensava ser portadora, o “pecado” ou os “pecados” que cometi.
Uma pequena e rara lembrança que tenho da minha infância é de um desenho da catequese que me marcou e que mostrava um coração manchado pelo pecado. Talvez eu imaginava que meu coração estivesse assim, manchado pelo pecado e que eu fosse para o inferno. (Texto escrito em 29/05/21)
Foi também durante a pandemia que comecei a ler o livro “Autocompaixão” e que pratiquei a maioria dos exercícios propostos pela autora. Quando vi o anúncio do livro pela primeira vez, no site da editora, alguns anos antes da pandemia, achei um contrassenso. “A compaixão é para os outros, não para si mesmo”, pensei. E critiquei o livro: “Autocompaixão é o contrário da compaixão. Não faz sentido nenhum”. Não imaginava, àquela época, que autocompaixão poderia não só complementar, mas auxiliar a compaixão.
Pesquisas mostram que pessoas mais autocompassivas tendem a ser mais amorosas e apoiadoras nos relacionamentos românticos, têm maior disponibilidade para chegar a um consenso nos conflitos de relacionamento, são menos intransigentes e são mais compassivas e misericordiosas em relação aos outros. (Manual de Mindfulness e Autocompaixão, 2018, p. 18)
Um dos exercícios propostos no livro que me ajudaram a reconhecer minha autocrítica foi o exercício do “crítico, criticado e observador compassivo”, que é feito com três cadeiras, dispostas de forma triangular, onde sentam esses três personagens do eu. Iniciamos o exercício pensando em um problema que nos incomoda e que, muitas vezes, provoca autocrítica. Depois, ocupamos inicialmente a cadeira do crítico que fala do seu ponto de vista sobre o problema. Observamos o modo como fala, as palavras que usa, o tom de voz. E depois, ocupamos a cadeira do criticado, que tenta expressar como se sente com as críticas. Novamente, observamos os mesmos elementos da fala. Esse diálogo segue, alternando os dois personagens que falam. Por último, o personagem do observador compassivo entra em cena para falar aos dois personagens.
Esse exercício me permitiu enxergar o quanto havia um crítico severo e rude, que dizia coisas muitas duras para mim, num tom de voz arrogante e ameaçador. E eu o temia e sofria com isso de forma inconsciente. Poder tomar consciência dessa voz autocrítica também trouxe a possibilidade de usar a autocompaixão, de poder me acolher nos momentos de sofrimento e aprender a usar palavras mais calorosas, gentis e amáveis comigo mesma.
No segundo semestre de 2024, tive a oportunidade de coordenar um grupo de estudos do livro “Autocompaixão” no espaço Oásis, em São Marcos. Os encontros semanais, em grupo, as discussões e exercícios coletivos trouxeram mais clareza sobre o conceito e fortaleceram ainda mais a minha prática. Lembro claramente de estar passando por uma fase difícil, de enfrentamento do processo de envelhecimento, da menopausa, da véspera da aposentadoria e outras situações de perdas e do quanto o grupo e as trocas me ajudaram a acolher essas situações com mais amorosidade e compaixão.
Os últimos anos têm sido muito desafiadores em muitos sentidos, mas as práticas de autocompaixão e meditação tem me acompanhado e me dado a tranquilidade para enfrentar as dificuldades. Faz tempo que deixei de ser tão dura comigo mesma e também com os outros, porque sim, a autocompaixão nos faz mais compassivos, verdade que descobri praticando. Já virou um hábito também dizer palavras acolhedoras para mim mesma como “Tá tudo bem, meu amor!”, “Te acalma, tá tudo certo” e outras, de um jeito amoroso. Ultimamente, tenho praticado os “gestos da autocompaixão”, que ajudam a sentir as várias expressões da autocompaixão no corpo. Frequentemente uso o autoabraço, toco meu coração, seguro meu rosto com as duas mãos ou acaricio meus cabelos para me lembrar que a compaixão está presente sempre, vinte e quatro horas por dia, como diz um de meus mestres budistas, Mingyur Rinpoche, e que eu posso acessá-la.
Aspiro que esse trabalho com a autocompaixão possa beneficiar outras pessoas, tanto quanto tem me beneficiado e que o sofrimento possa ser encarado com mais amor e compaixão.
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